{"id":29284,"date":"2025-09-07T09:30:18","date_gmt":"2025-09-07T12:30:18","guid":{"rendered":"https:\/\/ipatingafc.com.br\/index.php\/2025\/09\/07\/crise-climatica-ameaca-tradicao-milenar-da-ceramica-waura\/"},"modified":"2025-09-07T09:30:18","modified_gmt":"2025-09-07T12:30:18","slug":"crise-climatica-ameaca-tradicao-milenar-da-ceramica-waura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ipatingafc.com.br\/index.php\/2025\/09\/07\/crise-climatica-ameaca-tradicao-milenar-da-ceramica-waura\/","title":{"rendered":"Crise clim\u00e1tica amea\u00e7a tradi\u00e7\u00e3o milenar da cer\u00e2mica Waur\u00e1"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<div wp_automatic_readability=\"218.93610259902\">\n<p>Conta a tradi\u00e7\u00e3o\u00a0do povo\u00a0Waur\u00e1 (ou Wauja) que, h\u00e1 muitos anos, uma grande cobra-canoa apareceu. Chamada de Kamalu-h\u00e1i, a entidade\u00a0trazia artefatos cer\u00e2micos em seu dorso, e foi com ela que os Waur\u00e1 aprenderam a arte ancestral da cer\u00e2mica.<\/p>\n<p>Antes de se despedir dos Waru\u00e1, a cobra-canoa deixou para eles seus dejetos: os montes de argila que foram depositados nas margens do rio, para que as pe\u00e7as pudessem ser produzidas pelos ind\u00edgenas. Assim, a cer\u00e2mica Waur\u00e1 passou a ser fabricada, constituindo-se em um dos elementos de identidade desse povo.<\/p>\n<p>Como heran\u00e7a ancestral, passada de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, essas pe\u00e7as s\u00e3o feitas artesanalmente, podendo variar de pequenos potinhos a grandes panelas. Elas servem para o preparo de alimentos e armazenamento, mas tamb\u00e9m para serem utilizadas em rituais ou como objetos decorativos.<\/p>\n<p><strong>Hoje \u00e9 Dia: independ\u00eancia e anivers\u00e1rio da R\u00e1dio MEC s\u00e3o os destaques<\/strong><\/p>\n<p><strong>Desfile de 7 de Setembro: confira ao vivo a transmiss\u00e3o da TV Brasil<\/strong><\/p>\n<p>Depois de modeladas \u00e0\u00a0m\u00e3o, as pe\u00e7as secam ao sol e passam por dezenas de raspagens, at\u00e9 chegar \u00e0 espessura desejada. Em seguida, elas s\u00e3o lixadas e polidas, at\u00e9 que possam ser queimadas ao ar livre. S\u00f3 ent\u00e3o \u00e9 que essas pe\u00e7as adquirem sua caracter\u00edstica mais reconhecida: a pintura de grafismos, realizada com pigmentos naturais.<\/p>\n<p>Para fazer essa cer\u00e2mica, os Waur\u00e1 \u2500 que habitam o Parque Nacional do Xingu, em Mato Grosso \u2500 coletam o barro no leito do rio e\u00a0o misturam com uma esp\u00e9cie de esponja de \u00e1gua doce ou coral, chamada cauxi. Formado nos troncos e ra\u00edzes da vegeta\u00e7\u00e3o, o cauxi \u00e9 coletado no fundo dos rios e \u00e9 essencial para dar liga ao barro e evitar rachaduras nas pe\u00e7as.<\/p>\n<p>\u201cPrimeiro a gente pega o barro no rio ou perto do rio. Os homens \u00e9 que mergulham para pegar o barro\u201d, explicou Yakuwipu Waur\u00e1, lideran\u00e7a ind\u00edgena, ceramista e professora Waur\u00e1, que vive na aldeia Piyulewene, no Parque Nacional do Xingu.<\/p>\n<p>\u201cA gente pega o barro e\u00a0tamb\u00e9m o cauxi. O barro, sozinho, n\u00e3o se forma. Se a gente s\u00f3 usar o barro, vai rachar tudo. E, para n\u00e3o rachar, a gente usa o cauxi, que fica no p\u00e2ntano do rio ou na beira do rio. O cauxi se reproduz\u00a0enquanto o rio fica cheio. Ele fica l\u00e1 por uns quatro ou cinco meses, brotando. Ele vai crescendo e, depois, morre. Morre sozinho\u201d, explicou a ceramista.<\/p>\n<p><strong>Lula exalta soberania e defesa do povo em rede do 7 de setembro<\/strong><\/p>\n<p><strong>Bahia goleia Confian\u00e7a e garante pentacampeonato da Copa do Nordeste<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-cheio_8colunas type-image\">\n<h6 class=\"meta\">Yakuwipu Waur\u00e1\u00a0durante a reuni\u00e3o de Governan\u00e7a Geral do Xingu sobre a BR 242.\u00a0<strong>Pirat\u00e1 Waur\u00e1\/ISA\/Proibida reprodu\u00e7\u00e3o<\/strong><!--END copyright=435817--><\/h6>\n<\/div>\n<h2>Risco<\/h2>\n<p><strong>Guardado e transmitido h\u00e1 mais de 1 mil anos, principalmente pelas mulheres, o conhecimento da fabrica\u00e7\u00e3o da cer\u00e2mica Waur\u00e1, no entanto, agora est\u00e1 em risco. <\/strong>As secas prolongadas e as cheias cada vez mais curtas e irregulares t\u00eam reduzido drasticamente a disponibilidade do cauxi, elemento essencial para a produ\u00e7\u00e3o dessas cer\u00e2micas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o processo artesanal, que envolve coleta de barro, queima em madeira espec\u00edfica (jatob\u00e1) e pintura com grafismos tradicionais, tamb\u00e9m sofre com os impactos ambientais. <strong>Sem esses insumos, fica em risco n\u00e3o apenas a produ\u00e7\u00e3o, mas a autonomia econ\u00f4mica das mulheres e a transmiss\u00e3o cultural para as novas gera\u00e7\u00f5es.<\/strong><\/p>\n<p>\u201cDesde 2020, a gente vem percebendo que a mudan\u00e7a clim\u00e1tica est\u00e1 afetando [a produ\u00e7\u00e3o de cauxi]. Como o rio n\u00e3o sobe mais por um [per\u00edodo] de cinco meses, ficando apenas tr\u00eas meses e j\u00e1 baixando, a\u00ed n\u00e3o tem o suficiente para o cauxi se reproduzir. Ele n\u00e3o cresce mais\u201d, falou Yakuwipu, em entrevista \u00e0 <strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>.<\/p>\n<p>Ela contou que as dificuldades levaram \u00e0 interrup\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de\u00a0panelinhas artesanais. Al\u00e9m disso,\u00a0 foi necess\u00e1rio buscar o cauxiem outros lugares, o que encareceu o trabalho.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-cheio_8colunas type-image\">\n<h6 class=\"meta\">Cer\u00e2mica Waur\u00e1.\u00a0<strong>Claudio Tavares\/ISA\/Proibida reprodu\u00e7\u00e3o<\/strong><!--END copyright=435816--><\/h6>\n<\/div>\n<p>\u201cNo lugar em que a gente costumava sempre pegar [cauxi], agora \u00e9 que ele come\u00e7ou a se recuperar. Mas os cauxis ali s\u00e3o muito pequenos e insuficientes para cortar, queimar e fazer a mistura [com o barro]\u201d, completou.<\/p>\n<p>Na \u00faltima semana, ceramistas do povo Waur\u00e1 estiveram em S\u00e3o Paulo participando de uma s\u00e9rie de encontros, oficinas e rodas de conversa. E aproveitaram para fazer um alerta sobre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, que n\u00e3o s\u00f3 vem intensificando eventos extremos como enchentes e secas, mas tamb\u00e9m vem afetando a identidade e tradi\u00e7\u00e3o de diversos povos.<\/p>\n<p>\u201cIsso tudo \u00e9 muito preocupante. A gente se preocupa muito com o avan\u00e7o do desmatamento em volta do Xingu. Nunca imaginamos que isso afetaria a produ\u00e7\u00e3o de panelinha [as cer\u00e2micas Waur\u00e1]. A gente sempre se preocupou se esse conhecimento se perderia com o tempo. Mas a gente nunca pensou que chegaria esse momento de sermos afetados pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. O povo Waur\u00e1 vive do que a natureza oferece. S\u00f3 que a gente est\u00e1 pagando o pre\u00e7o e as consequ\u00eancias do mal que os outros fazem \u00e0 natureza\u201d, alertou Yakuwipu. \u201cInfelizmente, voc\u00eas n\u00e3o cuidam [do meio ambiente]. Voc\u00eas s\u00f3 abusam da natureza\u201d, refor\u00e7ou.<\/p>\n<p><strong>Como a falta de cauxi afeta a produ\u00e7\u00e3o de panelinhas, consequentemente isso tamb\u00e9m vem trazendo reflexos sobre a identidade e a renda dessa popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, que comercializa essas cer\u00e2micas.<\/strong><\/p>\n<p>\u201cEstamos amea\u00e7ados, tanto culturalmente quanto tamb\u00e9m na renda\u201d, destacou a lideran\u00e7a ind\u00edgena. \u201cTodas as pe\u00e7as que a gente produz s\u00e3o relacionadas aos materiais que est\u00e3o em volta da gente, como os animais, os p\u00e1ssaros e os peixes. Al\u00e9m disso, [as cer\u00e2micas] s\u00e3o peda\u00e7os de nossas hist\u00f3rias, s\u00e3o mem\u00f3rias. Atrav\u00e9s de cada pe\u00e7a, a gente tem contado do [nosso] passado e da [nossa] cultura tamb\u00e9m. Cada pintura que fazemos, por meio dessas linhas, nos mant\u00eam conectados ao passado, ao presente e ao futuro\u201d.<\/p>\n<p>Em entrevista \u00e0 <strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>, no Espa\u00e7o Floresta do Centro, do Instituto Socioambiental, no centro da capital paulista, Yakuwipu disse que, al\u00e9m da produ\u00e7\u00e3o das cer\u00e2micas, as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas tamb\u00e9m vem dificultando a produ\u00e7\u00e3o de alimentos dos povos ind\u00edgenas. \u201cEm 2023, n\u00e3o conseguimos plantar uma grande escala de mandioca. Eu replantei tr\u00eas vezes, e a mandioca cresceu toda pequena. E a gente n\u00e3o conseguiu plantar milho, perdemos todas as sementes. Tamb\u00e9m n\u00e3o conseguimos plantar bananas\u201d.<\/p>\n<h2>COP 30 em Bel\u00e9m<\/h2>\n<p>Para a l\u00edder ind\u00edgena, esse cen\u00e1rio refor\u00e7a a urg\u00eancia dos debates da Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Mudan\u00e7a do Clima (COP 30), que ser\u00e1 realizada em Bel\u00e9m, de 10 a 21 de novembro. Para ela, \u00e9 importante que as autoridades ou\u00e7am as vozes ind\u00edgenas e que os fazendeiros \u201cdeixem de desmatar as florestas\u201d.<\/p>\n<p>\u201cOs xinguanos [habitantes do Xingu] precisam ser consultados sobre todas as obras que v\u00e3o ser constru\u00eddas em volta do Xingu, porque a gente j\u00e1 tem uma experi\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 [usina] PCH Paranatinga II, que foi constru\u00edda sem estudo nenhum. As autoridades falaram que ela n\u00e3o ia afetar a vida da gente, mas, passados dez anos, ela que foi respons\u00e1vel por secar o Rio Xingu. Para evitar [os desastres ambientais], \u00e9 preciso que as autoridades nos respeitem, porque o rio e a floresta respiram como n\u00f3s\u201d, destacou Yakuwipu.<\/p>\n<p>Para Karina Ara\u00fajo, analista de pesquisa social do Programa Xingu do Instituto Socioambiental, \u00e9 fundamental que os povos ind\u00edgenas sejam ouvidos sobre os projetos de infraestrutura do pa\u00eds e tamb\u00e9m sobre a\u00e7\u00f5es que possam impedir o desmatamento e as queimadas na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cAcho que essa consulta livre, pr\u00e9via e informada \u00e9 um tipo de solu\u00e7\u00e3o. Se voc\u00ea vai fazer um empreendimento sem ouvir os povos ind\u00edgenas, voc\u00ea vai afetar n\u00e3o s\u00f3 os povos ind\u00edgenas, voc\u00ea vai afetar todo o entorno e as gera\u00e7\u00f5es futuras. Quando a gente ouve os povos ind\u00edgenas, eles est\u00e3o fazendo a mitiga\u00e7\u00e3o e a adapta\u00e7\u00e3o. A gente sabe que, no entorno do Parque Ind\u00edgena do Xingu, temos muita produ\u00e7\u00e3o de soja. \u00c9 preciso que as autoridades dos pa\u00edses que compram essa soja vejam como s\u00e3o tamb\u00e9m respons\u00e1veis por afetar esse equil\u00edbrio ambiental\u201d, falou.<\/p>\n<p>Karina disse ter muita esperan\u00e7a sobre a participa\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas na COP 30. \u201cAl\u00e9m do evento acontecer no Brasil, ele acontece aqui nesse momento pol\u00edtico em que temos o Minist\u00e9rio dos Povos Ind\u00edgenas. A gente tem organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas muito fortalecidas por esse minist\u00e9rio e por toda uma mudan\u00e7a, vamos dizer assim, de financiadores. Atualmente, temos muito mais financiadores ou empresas financiando diretamente as associa\u00e7\u00f5es e organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas. Isso aumenta o protagonismo dos ind\u00edgenas\u201d, disse ela. \u201cEnt\u00e3o, eu espero que tanto o governo brasileiro como os governos de outros pa\u00edses se coloquem em escuta [aos apelos ind\u00edgenas]\u201d.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conta a tradi\u00e7\u00e3o\u00a0do povo\u00a0Waur\u00e1 (ou Wauja) que, h\u00e1 muitos anos, uma grande cobra-canoa apareceu. 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