{"id":44959,"date":"2026-06-12T08:53:08","date_gmt":"2026-06-12T11:53:08","guid":{"rendered":"https:\/\/ipatingafc.com.br\/index.php\/2026\/06\/12\/a-historia-vetada-pela-fifa-em-camisa-da-copa\/"},"modified":"2026-06-12T08:53:08","modified_gmt":"2026-06-12T11:53:08","slug":"a-historia-vetada-pela-fifa-em-camisa-da-copa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ipatingafc.com.br\/index.php\/2026\/06\/12\/a-historia-vetada-pela-fifa-em-camisa-da-copa\/","title":{"rendered":"a hist\u00f3ria vetada pela Fifa em camisa da Copa"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<div>\n<p><strong>Quando estrear na Copa do Mundo de futebol no s\u00e1bado (13), o Haiti n\u00e3o exibir\u00e1 mais na camisa a ilustra\u00e7\u00e3o de um epis\u00f3dio emblem\u00e1tico da hist\u00f3ria moderna: a revolu\u00e7\u00e3o que levou \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o e \u00e0 independ\u00eancia do pa\u00eds (1791\u20131804).\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>A sele\u00e7\u00e3o caribenha teve que modificar seus uniformes de jogo depois do veto da Federa\u00e7\u00e3o Internacional de Futebol (Fifa). A entidade argumentou que era uma manifesta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, algo proibido em seu regulamento.<\/strong><\/p>\n<p>O desenho mostrava um grupo de pessoas segurando uma bandeira vermelha e branca. <strong>Em entrevista ao <em>The Athletic<\/em>, jornal dos Estados Unidos ligado ao <em>The New York Times<\/em>, um representante do Haiti disse que era uma refer\u00eancia \u00e0 Batalha de Verti\u00e8res. Ocorrida em 1803, a rebeli\u00e3o foi decisiva para a derrota francesa no territ\u00f3rio.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Prestes a estrear na Copa, Ancelotti n\u00e3o d\u00e1 pistas sobre escala\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><strong>Coreia do Sul e Rep\u00fablica Tcheca fecham primeiro dia de Copa do Mundo<\/strong><\/p>\n<p>A inclus\u00e3o da imagem valorizava um s\u00edmbolo de orgulho nacional, mas tamb\u00e9m explorava uma coincid\u00eancia. <strong>A batalha aconteceu em 18 de novembro de 1803. A sele\u00e7\u00e3o de futebol se classificou para a Copa do Mundo no dia 18 de novembro de 2025<\/strong>, ao vencer a Nicar\u00e1gua por 2 a 0, em jogo v\u00e1lido pelas Eliminat\u00f3rias.<\/p>\n<p><strong>O professor e mestre em hist\u00f3ria pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Gabriel L\u00e9ccas pesquisa sobre a mem\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o haitiana. <\/strong>Ele lembra que n\u00e3o \u00e9 a primeira vez que uma entidade esportiva censura imagens hist\u00f3ricas de uma delega\u00e7\u00e3o haitiana.\u00a0<\/p>\n<p>Em fevereiro deste ano, nos Jogos de Inverno na It\u00e1lia, o Comit\u00ea Ol\u00edmpico Internacional (COI) proibiu uma ilustra\u00e7\u00e3o de Toussaint Louverture, um dos l\u00edderes da revolu\u00e7\u00e3o, no uniforme que o Haiti usaria na abertura do evento. O argumento tamb\u00e9m foi de que era um elemento pol\u00edtico.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cS\u00e3o demonstra\u00e7\u00f5es do silenciamento hist\u00f3rico e pol\u00edtico da mem\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o e dos sujeitos hist\u00f3ricos que a constru\u00edram. Esse silenciamento se deu no s\u00e9culo XIX pelos discursos escravistas, quando as elites temiam uma nova revolu\u00e7\u00e3o escrava.\u201d\u00a0<\/p>\n<p><strong>Abertura da Copa 2026 emociona o Est\u00e1dio Azteca, no M\u00e9xico<\/strong><\/p>\n<p><strong>Semelhan\u00e7as entre Brasil e \u00c1frica do Sul v\u00e3o al\u00e9m do verde e amarelo<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Segundo L\u00e9ccas, esse processo evidencia-se por discursos racistas, cuja vis\u00e3o de mundo n\u00e3o reconhece o protagonismo de sujeitos hist\u00f3ricos n\u00e3o brancos na luta por seus direitos e pelo questionamento das hierarquias raciais.<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-cheio_8colunas type-image\">\n<div class=\"dnd-caption-wrapper\">\n<p>A imagem, de cerca de 1797,\u00a0representa as limita\u00e7\u00f5es da liberdade da democracia francesa em solo haitiano.\u00a0<strong>Archives d\u00e9partementales de la Gironde<\/strong><!--END copyright=465723--><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>Entenda a seguir o que foi Revolu\u00e7\u00e3o do Haiti e a Batalha de Verti\u00e8res:<\/strong><\/p>\n<h2>Coloniza\u00e7\u00e3o\u00a0<\/h2>\n<p><strong>Segundo o historiador Marco Morel, no livro <em>A Revolu\u00e7\u00e3o do Haiti e o Brasil Escravista<\/em>\u00a0(2017), a ilha caribenha era habitada pelo grupo ind\u00edgena Ta\u00efno (ou Arawak)<\/strong>, que chamava o local de Ha\u00efti (terra montanhosa), antes da chegada dos europeus. Em 1492, Cristov\u00e3o Colombo desembarca no local e batiza a ilha de Hispaniola.\u00a0<\/p>\n<p><strong>A popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, estimada entre centenas de milhares a um milh\u00e3o de pessoas, foi dizimada em poucas d\u00e9cadas<\/strong> devido a massacres, doen\u00e7as europeias e ao trabalho nas minas imposto pelos espanh\u00f3is.<\/p>\n<p><strong>Para suprir a car\u00eancia de m\u00e3o de obra, o rei Carlos V da Espanha autorizou, em 1517, a importa\u00e7\u00e3o de africanos escravizados para a ilha.<\/strong> Os espanh\u00f3is concentraram sua coloniza\u00e7\u00e3o na parte ocidental. A parte oriental foi cedida para a Fran\u00e7a em 1697 e passou a ser chamada de Saint-Domingue (S\u00e3o Domingo).<\/p>\n<p>A economia nessa \u00e1rea era baseada em um trip\u00e9 de agricultura de exporta\u00e7\u00e3o: cana-de-a\u00e7\u00facar, caf\u00e9 e anil. Em 1789, a col\u00f4nia representava dois ter\u00e7os do com\u00e9rcio exterior da Fran\u00e7a e era o maior mercado individual para o tr\u00e1fico negreiro europeu. A sociedade era dividida entre uma minoria de brancos e negros libertos, e uma maioria de africanos e descendentes escravizados.<\/p>\n<p><strong>A vida dos escravizados era regulada pelo Code Noir (C\u00f3digo Negro) de 1685, que previa castigos corporais severos e estrat\u00e9gias para evitar rebeli\u00f5es. O que acabou n\u00e3o se mostrando suficiente para evitar o colapso do sistema colonial.<\/strong><\/p>\n<h2>Revolu\u00e7\u00e3o\u00a0<\/h2>\n<p>No livro <em>Os Jacobinos Negros: Toussaint L\u2019ouverture e a Revolu\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Domingos<\/em>, o historiador caribenho C. L. R. James explica\u00a0que o enfraquecimento do poder da Fran\u00e7a e a circula\u00e7\u00e3o de ideais iluministas de liberdade e igualdade na ilha criaram um quadro favor\u00e1vel para a revolta.<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-medio_4colunas type-image atom-align-left\">\n<div class=\"dnd-caption-wrapper\">\n<p>Imagem de Toussaint Louverture, de autoria de Nicolas Maurin (1838).\u00a0<strong>Biblioth\u00e8que Nationale de France Fran\u00e7ois<\/strong><!--END copyright=465722--><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>A rebeli\u00e3o\u00a0foi organizada por lideran\u00e7as de origem africana, como Toussaint Louverture, Jean-Jacques Dessalines e Henri Christophe. Foram chamadas pelo pesquisador de \u201cjacobinos negros\u201d, pela semelhan\u00e7a com os jacobinos da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa (1789\u20131799), que representavam camadas mais pobres da popula\u00e7\u00e3o e tinham posi\u00e7\u00e3o mais firme de defesa da igualdade social.<\/strong><\/p>\n<p>Em S\u00e3o Domingos, o levante\u00a0armado\u00a0come\u00e7ou efetivamente na noite de 22 de agosto de 1791, quando foram destru\u00eddas centenas de engenhos e planta\u00e7\u00f5es, e colonos brancos foram mortos. A ilha entrou em uma guerra que durou 12 anos.<\/p>\n<p><strong>Embora a Fran\u00e7a tenha decretado formalmente a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o em suas col\u00f4nias em 1794, o governo liderado por Napole\u00e3o Bonaparte enviou uma expedi\u00e7\u00e3o militar em 1802 com o objetivo de restabelecer o regime escravista na ilha. A medida provocou a uni\u00e3o das for\u00e7as rebeldes locais em uma guerra total pela independ\u00eancia.<\/strong><\/p>\n<h2>Batalha de Verti\u00e8res<\/h2>\n<p><strong>O confronto decisivo contra as tropas francesas ocorreu em novembro de 1803, nas proximidades do Cabo Franc\u00eas (atual Cabo Haitiano).<\/strong> For\u00e7as rebeldes integradas por negross, sob a lideran\u00e7a de Jean-Jacques Dessalines, concentraram a ofensiva contra o ex\u00e9rcito comandado pelo general franc\u00eas Donatien de Rochambeau.<\/p>\n<p><strong>Durante os combates, destacou-se a atua\u00e7\u00e3o do oficial haitiano Fran\u00e7ois Capois (conhecido como Capois-la-Mort), que liderou o avan\u00e7o de sua coluna militar sob fogo de artilharia.<\/strong> A vit\u00f3ria das tropas comandadas por Dessalines for\u00e7ou a evacua\u00e7\u00e3o e a rendi\u00e7\u00e3o definitiva dos soldados franceses no territ\u00f3rio.<\/p>\n<h2>Independ\u00eancia e impacto<\/h2>\n<p><strong>Em 1\u00ba de janeiro de 1804, Dessalines proclamou oficialmente a independ\u00eancia de S\u00e3o Domingos<\/strong>, que foi rebatizada com o nome de origem ind\u00edgena Haiti. O ato marcou a funda\u00e7\u00e3o da primeira rep\u00fablica negra do mundo e o primeiro Estado nacional das Am\u00e9ricas a abolir legalmente a escravid\u00e3o desde a sua origem.<\/p>\n<p>O processo revolucion\u00e1rio haitiano gerou repercuss\u00f5es internacionais, influenciando movimentos emancipacionistas e debates sobre direitos civis e raciais em outros territ\u00f3rios das Am\u00e9ricas, inclusive no Brasil durante o per\u00edodo imperial.<\/p>\n<p><strong>Para o historiador Gabriel L\u00e9ccas, um dos elementos mais importantes da Revolu\u00e7\u00e3o foi o fato de ela ter sido a primeira a combinar a luta anticolonial com um programa pol\u00edtico abolicionista.<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cO tra\u00e7o que contribui diretamente para esse pioneirismo foi o protagonismo de negros, libertos e escravizados nas lutas de independ\u00eancia.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O professor explica que a revolu\u00e7\u00e3o fundou um imp\u00e9rio abolicionista em que os cidad\u00e3os \u2013 de qualquer cor \u2013 eram denominados negros, ressignificando o termo negritude como uma identidade pol\u00edtica.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cEsse aspecto questionou a ideia de humanidade elaborada por movimentos como a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa e a Independ\u00eancia dos Estados Unidos, que inicialmente n\u00e3o reconheceram a cidadania de negros e mesti\u00e7os.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando estrear na Copa do Mundo de futebol no s\u00e1bado (13), o Haiti n\u00e3o exibir\u00e1&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-44959","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-jogos-ao-vivo"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ipatingafc.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44959","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ipatingafc.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ipatingafc.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ipatingafc.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ipatingafc.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=44959"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ipatingafc.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44959\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ipatingafc.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=44959"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ipatingafc.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=44959"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ipatingafc.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=44959"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}