{"id":45097,"date":"2026-06-14T13:32:09","date_gmt":"2026-06-14T16:32:09","guid":{"rendered":"https:\/\/ipatingafc.com.br\/index.php\/2026\/06\/14\/luta-abolicionista-de-luiz-gama-pode-virar-patrimonio-da-humanidade\/"},"modified":"2026-06-14T13:32:09","modified_gmt":"2026-06-14T16:32:09","slug":"luta-abolicionista-de-luiz-gama-pode-virar-patrimonio-da-humanidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ipatingafc.com.br\/index.php\/2026\/06\/14\/luta-abolicionista-de-luiz-gama-pode-virar-patrimonio-da-humanidade\/","title":{"rendered":"Luta abolicionista de Luiz Gama pode virar Patrim\u00f4nio da Humanidade"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<div>\n<p>Documentos, manuscritos e textos publicados na imprensa pelo abolicionista Luiz Gama foram submetidos \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Educa\u00e7\u00e3o, a Ci\u00eancia e a Cultura (Unesco) para obter o reconhecimento como Patrim\u00f4nio Documental da Humanidade.\u00a0<\/p>\n<p>A candidatura ao edital 2026-2027 do Programa Mem\u00f3ria do Mundo foi oficializada em 26 de novembro de 2025 pelo Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores e pelo Arquivo Nacional. O resultado dever\u00e1 ser revelado no final de 2027, durante a Confer\u00eancia Geral da Unesco.<\/p>\n<p>Figura hist\u00f3rica inscrita no Livro de Her\u00f3is e Hero\u00ednas da P\u00e1tria, Luiz Gama libertou mais de 500 pessoas escravizadas com sua atua\u00e7\u00e3o jur\u00eddica em defesa da popula\u00e7\u00e3o negra brasileira.<\/p>\n<p><strong>Caso Arthur; menino de 11 anos comeu bolo em festa de fam\u00edlia antes de morrer; exame confirmou<\/strong><\/p>\n<p><strong>Mega-Sena acumula para R$ 16 milh\u00f5es; veja n\u00fameros sorteados<\/strong><\/p>\n<p>Nascido livre e vendido pelo pai como escravo, Gama aprendeu a ler e escrever aos 17 anos, mas foi impedido pelo preconceito racial de se formar em Direito. Mesmo assim,\u00a0ele assistiu \u00e0s aulas do curso como ouvinte e se tornou r\u00e1bula, pessoa com direito de atuar nos tribunais. A partir da\u00ed, se destacou na defesa da liberta\u00e7\u00e3o de negros escravizados e na concess\u00e3o de registros de identidade para ex-escravizados.<\/p>\n<h2>Defensor da liberdade<\/h2>\n<p>Pesquisadora e professora da Universidade Federal do Estado de S\u00e3o Paulo (Unifesp), L\u00edgia Fonseca Ferreira disse, em entrevista \u00e0 <strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>, que Luiz Gama tamb\u00e9m se destaca entre os abolicionistas por ter vivenciado a escraviza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cTudo que escreveu e a maneira como, depois, se voltou para a liberta\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos tem um olhar particular, quase de caso a caso, entendendo aqueles com quem tratou\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>L\u00edgia Ferreira \u00e9 pesquisadora da trajet\u00f3ria de Luiz Gama e autora dos livros <em>Com a palavra, Luiz Gama<\/em> e <em>Li\u00e7\u00f5es de resist\u00eancia: Artigos de Luiz Gama na imprensa de S\u00e3o Paulo e do Rio de Janeiro<\/em>, que re\u00fanem textos, cartas e poemas do abolicionista.<\/p>\n<p><strong>Brasil no Mundo debate geopol\u00edtica do futebol e Copa do Mundo de 2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dois helic\u00f3pteros se chocam e deixam seis mortos no Rio<\/strong><\/p>\n<p>Por ser negro, Gama foi impedido de frequentar o curso da Faculdade de Direito do Largo do S\u00e3o Francisco, no qual tinha tentado ingressar em 1850. Segundo a professora, ele come\u00e7ou a atuar em meados dos anos 1860, ap\u00f3s receber autoriza\u00e7\u00e3o para advogar em primeira inst\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Em reconhecimento ao trabalho que desenvolveu, Luiz Gama foi homenageado, em 2015, pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), com um t\u00edtulo p\u00f3stumo de advogado e carteirinha com registro profissional da institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Luiz Gama nasceu liberto, filho da africana Luiza Mahin, que foi trazida \u00e0 for\u00e7a da regi\u00e3o africana atualmente pertencente ao Benim. Aos 10 anos, no entanto, foi vendido em Salvador, como escravizado, pelo pr\u00f3prio pai, o fidalgo portugu\u00eas branco Ant\u00f4nio Agostinho Carlos Pinto da Gama, em troca de dinheiro para saldar uma d\u00edvida. O menino foi levado para S\u00e3o Paulo, onde vivenciou a escravid\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cNos seus escritos jornal\u00edsticos em primeira pessoa, em que fala das origens, ele se refere aos escravizados n\u00e3o como os outros, ele diz meus irm\u00e3os de infort\u00fanio. Ele fala em n\u00f3s\u201d, completou L\u00edgia Fonseca Ferreira.\u00a0<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>S\u00f3 aos 18 anos, Gama conseguiu provar que tinha direito \u00e0\u00a0liberdade e saiu do cativeiro.<\/p>\n<h2>Patrim\u00f4nio documental<\/h2>\n<p>O t\u00edtulo da candidatura apresentada \u00e0 Unesco \u00e9 <em>Presen\u00e7a Negra no Arquivo: Luiz Gama, articulador da liberdade (1830-1882)<\/em>. O material foi organizado pelo Arquivo P\u00fablico do Estado de S\u00e3o Paulo (Apesp), respons\u00e1vel pelo acervo, que j\u00e1 foi inscrito no Programa Mem\u00f3ria do Mundo pelo Comit\u00ea Regional para a Am\u00e9rica Latina e o Caribe (MoWLAC) da Unesco.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-cheio_8colunas type-image\">\n<h6 class=\"meta\"><!--copyright=465361-->Reconhecimento de Luiz Gama pelo Comit\u00ea Regional para a Am\u00e9rica Latina e o Caribe (MoWLAC) da Unesco\u00a0\u00a0<strong>Acervo do APESP<\/strong><!--END copyright=465361--><\/h6>\n<\/div>\n<p>Conforme os crit\u00e9rios estabelecidos pela organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, o Brasil p\u00f4de inscrever na organiza\u00e7\u00e3o internacional uma segunda candidatura, <em>Cole\u00e7\u00e3o Documental: Passaportes de Pessoas Escravizadas, Libertas, Pessoas Livres e Africanos Repatriados (1821-1889)<\/em>, produzida pelo Arquivo P\u00fablico do Estado da Bahia.<\/p>\n<p>Entre os mais importantes documentos do acervo de Luiz Gama, est\u00e3o as cartas de alforria guardadas no Arquivo P\u00fablico do Estado de S\u00e3o Paulo. Segundo o pesquisador do Apesp Marcelo Quintanilha, o material foi produzido na \u00e9poca em que Gama era escriv\u00e3o de uma delegacia de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>De acordo com Quintanilha, a equipe do APESP envolvida na produ\u00e7\u00e3o do dossi\u00ea de candidatura levou entre sete e oito meses para juntar os documentos.\u00a0<\/p>\n<p>O diretor do arquivo p\u00fablico paulista, Thiago Nicodemo, contou que, ap\u00f3s o envio da candidatura, o Apesp conseguiu, por meio da intelig\u00eancia artificial, dar rostos \u00e0s pessoas que Gama libertou.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 uma quest\u00e3o de repara\u00e7\u00e3o importante, mas tamb\u00e9m de alcance p\u00fablico importante\u201d, pontuou. \u201c\u00c9 como se estiv\u00e9ssemos devolvendo para elas a sua condi\u00e7\u00e3o de gente\u201d.<\/p>\n<h2>Criatividade na luta<\/h2>\n<p>Mesmo liberto e alfabetizado, Gama teve dificuldade em encontrar emprego por ser negro e ex-escravizado no Brasil do\u00a0S\u00e9culo 19. Ele acabou aceitando uma vaga no chamado corpo policial, primeiro como porteiro da delegacia e, depois, como escriv\u00e3o e amanuense, fun\u00e7\u00e3o dada \u00e0 pessoa que escreve os documentos \u00e0 m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cUm escravo liberto e novo como ele, apesar de alfabetizado, n\u00e3o tinha emprego. Ent\u00e3o, ele entrou para o corpo policial e ganhava bem pouco\u201d, contou Marcelo Quintanilha.<\/p>\n<p>Foi nesse cargo, considerado de confian\u00e7a, que sua luta a favor do abolicionismo ganhou for\u00e7a. Com acesso aos passaportes de negros escravizados, Gama p\u00f4de constatar que muitos deles eram africanos trazidos ilegalmente para o Brasil. Na \u00e9poca, o tr\u00e1fico de pessoas escravizadas j\u00e1 havia sido proibido.<\/p>\n<p>\u201cQuando vinha o dono dos escravizados pedir o passaporte [na delegacia], ele notava que o escravizado era muito novo e n\u00e3o falava nem portugu\u00eas. Ele perguntava de onde [o escravizado] era e, ent\u00e3o, [Gama entendia que] era um escravo ilegal, contrabandeado\u201d, afirmou.\u00a0<\/p>\n<p>Nesses casos, Gama n\u00e3o entregava o passaporte e apreendia a pessoa escravizada, para que n\u00e3o permanecesse com quem\u00a0se intitulava dono de forma ilegal.<\/p>\n<p>\u201cComo o delegado, o chefe dele, era permissivo, esses escravizados acabaram se tornando libertos. A\u00ed, ele foi criando inimizades, pegando [escravizados] de gente poderosa\u201d, explicou.<\/p>\n<p>A partir desse trabalho, o abolicionista come\u00e7ou a fazer os registros dessas pessoas, e elas passaram a ter uma identidade no pa\u00eds. Essa atua\u00e7\u00e3o resultou em sua expuls\u00e3o da pol\u00edcia, em 1869.\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-cheio_8colunas type-image\">\n<h6 class=\"meta\">Matr\u00edcula\u00a0de emancipados com descri\u00e7\u00e3o assinada por Gama. \u201cEu Luiz Gonzaga Pinto da Gama, amanuense que o escrevi\u201d- <strong>Acervo do APESP<\/strong><!--END copyright=465362--><\/h6>\n<\/div>\n<p>Segundo o pesquisador, tudo est\u00e1 documentado em um livro escrito por Luiz Gama, com a lista de 123 africanos livres. O livro \u00e9 um dos documentos importantes que est\u00e3o no dossi\u00ea da candidatura na Unesco e faz parte do acervo do Apesp.<\/p>\n<p>\u201cFoi feito \u00e0 m\u00e3o por ele. A gente nota que ele se esfor\u00e7ou muito na descri\u00e7\u00e3o, para contar a hist\u00f3ria desses escravos. \u00c9 muito interessante o livro\u201d, apontou.<\/p>\n<p>Quintanilha destacou que, para incluir pessoas escravizadas que tinham sido contrabandeadas, Luiz Gama fez uma interpreta\u00e7\u00e3o do que significava o conceito de cidad\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cEle era um jurista muito inteligente. Criava solu\u00e7\u00f5es naquela sociedade conservadora que, at\u00e9 ent\u00e3o, ningu\u00e9m tinha aventado\u201d, concluiu.<\/p>\n<\/blockquote>\n<h2>Quest\u00e3o Netto<\/h2>\n<p>O advogado e pesquisador da hist\u00f3ria do abolicionista Bruno Rodrigues de Lima destacou outra luta de Luiz Gama que ficou conhecida como a Quest\u00e3o Netto, considerada por historiadores como <strong>a maior a\u00e7\u00e3o coletiva de liberta\u00e7\u00e3o de escravizados das Am\u00e9ricas<\/strong>.<\/p>\n<p>O processo tratava da liberdade de pessoas que constavam como patrim\u00f4nio\u00a0do comendador portugu\u00eas Manoel Joaquim Ferreira Netto, um dos homens mais ricos do Imp\u00e9rio. Ao fazer o testamento, o escravista determinou a liberta\u00e7\u00e3o de 217 escravizados ap\u00f3s a sua morte.<\/p>\n<p>Ao saber disso, Gama procurou verificar se a ordem tinha sido cumprida e teve que enfrentar uma batalha com a fam\u00edlia do comendador, que disputava os bens\u00a0dele e n\u00e3o queria dar liberdade \u00e0s pessoas escravizadas.<\/p>\n<p>Bruno Lima analisou os documentos guardados no Arquivo P\u00fablico do Estado de S\u00e3o Paulo que desvendaram a atua\u00e7\u00e3o de Gama para a liberta\u00e7\u00e3o e identifica\u00e7\u00e3o desses escravizados.\u00a0<\/p>\n<p>Esse trabalho contribuiu para embasar a candidatura que, em 2025, conquistou o registro do Comit\u00ea Regional para a Am\u00e9rica Latina e o Caribe (MoWLAC) da Unesco. Agora, a pesquisa tamb\u00e9m serve de base para a candidatura mundial.<\/p>\n<p>O reconhecimento da Unesco aos documentos, segundo Lima, representa muito para o Brasil, porque ser\u00e1 a primeira vez que uma obra abolicionista do pa\u00eds que mais teve pessoas escravizadas no mundo ser\u00e1 inclu\u00edda.\u00a0<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cUma obra abolicionista \u00e9 uma obra de afirma\u00e7\u00e3o da liberdade, da emancipa\u00e7\u00e3o humana e da igualdade entre todos e todas em um pa\u00eds que mais afirmou o contr\u00e1rio disso. A desigualdade, a viol\u00eancia e a escraviza\u00e7\u00e3o, que, no limite, \u00e9 a forma mais brutal de explora\u00e7\u00e3o do homem e da mulher\u201d, observou.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Bruno \u00e9 autor de <em>Luiz Gama contra o Imp\u00e9rio: a luta pelo direito no Brasil da Escravid\u00e3o<\/em> e organizador dos 11 volumes das <em>Obras Completas de Luiz Gama<\/em>. Em 2024, ganhou o Pr\u00eamio Jabuti Acad\u00eamico, categoria Direito, com o volume <em>Direito, 1870-1875<\/em>, um dos 11 que comp\u00f5em <em>Obras Completas de Luiz Gama<\/em>.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-cheio_8colunas type-image\">\n<h6 class=\"meta\"><!--copyright=247745-->Luiz Gama foi um intelectual negro no Brasil no s\u00e9culo XIX. \u2013 <strong>Biblioteca P\u00fablica do Paran\u00e1<\/strong><!--END copyright=247745--><\/h6>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Documentos, manuscritos e textos publicados na imprensa pelo abolicionista Luiz Gama foram submetidos \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-45097","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-jogos-ao-vivo"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ipatingafc.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45097","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ipatingafc.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ipatingafc.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ipatingafc.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ipatingafc.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=45097"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ipatingafc.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45097\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ipatingafc.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=45097"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ipatingafc.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=45097"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ipatingafc.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=45097"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}